ANGÚSTIA D(o)E POETA!
A frase surgiu no ar, solta
e pelo poeta foi ouvida
sem o propósito da coisa,
mas foi ouvida,
e o poeta habituado
às coisas soltas, tomou nota
como sempre faz
quando ouve frases soltas,
e à noite, sentado ao computador
puxou da nota:
Angústia do Poeta - dizia o papelinho.
Angústia DE Poeta - leu ele
e ficou estático
de olhar fixo naquele papelinho
que tinha apenas uma face escrita.
Na outra, nada, absolutamente nada,
tal como na sua angústia de poeta,
nada mais tinha para além do papelinho.
Na vida, as frases soltas
acontecem com frequência;
olhamos para trás,
analisamos, comparamos casos passados,
consultamos os nossos apontamentos
e verificamos que não avançamos
e as folhas em branco
nada nos dizem quanto ao futuro
e ficamos estáticos, paralisados
numa angústia existencial,
como o poeta na sua angústia
pelo poema que não sai
ou como o lavrador no seu sofrer
pela chuva que não cai
e o grão que não medra.
Mas ao poeta, o mau tempo é passageiro.
O drama é sempre passageiro.
O poeta é um sofredor
e quando a dor é maior, finge!
“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
diz-nos Fernando Pessoa,
e sendo assim, todo o poeta
tem garantido o céu;
Todo o pecado é perdoado
Na alma de um fingidor
Que confessa com tanta dor
Um pecado não consumado.
angelino

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